Mishpat é uma das palavras em Hebraico traduzidas por Lei.
Significa justiça, ordenança, costume, maneira, modo de fazer.
A palavra representa aquilo que é a ideia mais importante para uma correta compreensão do governo – seja o governo do homem pelo homem, seja o governo de toda a criação por Deus.
Embora muitas vezes traduzida por “justiça” nas mais de 400 ocorrências de mishpat na Bíblia hebraica, essa tradução freqüentemente é deficiente pelo fato de atualmente se fazer uma clara distinção entre os poderes legislativo, executivo e judiciário no que diz respeito a cargos e funcionários.
Por conseguinte, shapat, o verbo bastante comum (do qual deriva o substantivo mishpat) que significa “dominar”, “governar”, e que se refere a todas as funções de governo, fica erroneamente limitado apenas a questões judiciais, ao passo que tanto o verbo quanto o substantivo abarcam todas essas funções.
Uma análise de todos os usos na Bíblia traz à tona pelo menos 13 aspectos correlatos mas ao mesmo tempo distintos da idéia central.
- 0 ato de decidir uma ação litigiosa levada a um magistrado civil. Dt 25.1; Js 20.6 são exemplos.
- O local onde se decide uma ação litigiosa. Um uso claro desse uso bastante raro (porque não é conclusivo) é 1 Reis 7.7.
- O processo litigioso é denominado mishpat. Um exemplo é Isaías 3.14. A palavra “litígio” seria uma tradução apropriada para essa categoria. Os casos mais claros empregam a preposição ‘im, “com”, seguida de um substantivo, “um litígio [ou demanda judicial] com fulano” (Jó 22.4), ou então a preposição ’et, “com” (SI 143.2).
- Um caso de litígio (i.e., um caso específico levado ao magistrado). Salomão, por exemplo, pediu a Deus que lhe desse entendimento para poder “ouvir mishpat”, ou seja, decidir sobre um caso trazido até ele (1 Rs 3.11).
- Uma sentença ou decisão dada por um magistrado. Este é um sentido bastante comum. Em tais casos é plenamente correto empregar o costumeiro “juízo” (1 Rs 20.40; ARA, “sentença”).
- A época do julgamento. Um exemplo claro é Salmos 1.5; Eclesiastes 12.14, “Deus há de trazer a juízo [mishpat] todas as obras”.
- Soberania, a base legal da ação governamental, no sentido de autoridade ou direito final. Hoje em dia eis pessoas estão acostumadas a encontrar isso em constituições e na natureza do homem (“direitos naturais”), mas, de acordo com as Escrituras hebraicas: a) toda autoridade é divina e essa autoridade é denominada mishpãt: “o mishpãt é de Deus” (Dt 1.17); “a sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede todo mishpãt” (Pv 16.33); os indivíduos, por terem sido criados por Deus, possuem mishpãttm, “direitos”, inalienáveis ; b) o mishpãt do magistrado é conferido por Deus. A referência à autoridade de magistrado do Rei Messias é a melhor demonstração disso (SI 72.1-2). É claro que a doutrina da providência é fundamental a essa idéia (SI 103.19; cf. Rm 13.1 e ss.). Parece que esse reinado e domínio universal de Deus é a idéia transmitida por mishpãt em Jeremias 8.7,
“o meu povo não conhece a ordenança [mishpãt] do Senhor”. Existem também usos que envolvem o aspecto legislativo da ação de governar. - Enfatiza-se o atributo de justiça em toda a administração civil pessoal que é correta.
a) Essa justiça é basicamente um atributo de Deus; todo mishpãt verdadeiro tem a
sua fonte no próprio Deus e, por esse motivo, traz consigo as exigências divinas. “Quando,
portanto, as Escrituras falam do mishpãt de Deus (o que freqüentemente acontece), a
palavra possui a conotação particular, não tanto de justos estatutos de Deus, mas de
justas reivindicações de Deus. Deus, que é o Senhor, pode reivindicar e de fato reivindica”. Todo direito (justiça, autoridade, etc.) que existe é dele, “porque o SENHOR é Deus de justiça” (Is 30.18; cf. Gn 18.25). Deus ama o mishpãt nessa acepção (SI 37.28). No ketíb de Salmos 36.6 [7] se lê “teu mishpãt [singular] é um grande abismo”.
b) o mishpãt como justiça, ou seja, retidão arraigada no caráter de Deus, deve ser um atributo dos homens em geral e do processo judicial no meio deles (SI 106.37). Homens sábios falam do mishpãt (SI 37.30) e pensam nele (Pv 12.5), e Deus o exige dos homens (Mq 6.8). Os justos têm alegria nele (Pv 21.15), e magistrados justos fazem uso dele ao julgar (Mq 3.1; cf. Pv 29.4). - mishpãt também designa uma determinação legal — sendo freqüentemente usado em paralelo com hõq, “estatuto” (Êx 15.25), e tôrâ, “lei” (Is 42.4). As determinações do Pentateuco são mishpãt (ARA, “o estabelecido”; Lv 5.10; 9.16 et al.); na realidade as determinações individuais da lei mosaica são mishpãt (Dt 33.10, 21; 16 vezes em SI 119).
- Um plano (Êx 26.30); ou 11. costume (2 Rs 17.33);
- uma quantidade estabelecida (1 Rs 4.28 [5.8]) parecem fazer parte do alcance dessa palavra, embora esses dificilmente sejam sentidos padronizados, sendo antes sentidos derivados.
- O direito que alguém tem por força da lei, tanto divina quanto humana, é denominado mishpãt (Dt 18.3; Jr 32.7). Freqüentemente associada com tsedeq e ts‘dãqâ nas descrições encontradas no AT
sobre a soberania de Deus e da maneira divina de lidar com as suas criaturas, essa idéia é fundamental para a compreensão verdadeira da perspectiva bíblica acerca do mundo e
da vida.
Nota: O peitoral usado pelo sumo sacerdote é chamado de “peitoral do juízo” (Êx 28.15, 29-30), não devido a uma suposta revelação oferecida pelas pedras Urim e Tumim, mas porque o peitoral cobria o coração de Arão, sendo que essas pedras devem estar “sobre o coração de Arão, quando entrar perante o SENHOR: assim Arão levará o juízo [mishpãt] dos filhos de Israel sobre o seu coração diante do SENHOR continuamente”.
Aquilo com que Arão se preocupava diante de Deus era a justificação de Israel, ou seja, a sentença judicial (veja-se acima) acerca da culpabilidade. Assim, “na visão profética e também no dia-a-dia da vida oriental, a sentença de justificação era com freqüência expressa pela natureza do manto que a pessoa vestia. (…) Isaías 61.10 é uma boa ilustração disso”. Vejam-se também Isaías 62.3; Apocalipse 3.5; 7.9; 19.14; Ester 6.8-9,12
Bibliografia: MCKENZIE, Donald A. The judge of Israel. VT 17:118-21. — THAT. v.
2, p. 999-1009.
